Brado de Xangô

* Em breve detalhes da programação completa

O Brado de Xangô emerge, em nossos dias, como uma poderosa metáfora político-civilizatória, ética e espiritual para o enfrentamento da afroteofobia, do racismo religioso e da crescente crise climática que ameaça a vida em todas as suas manifestações. Não se trata apenas de uma evocação litúrgica ou simbólica do Òrìṣà da justiça, dos raios, dos trovões e do equilíbrio social. Trata-se de um chamado à responsabilidade coletiva, à defesa da dignidade humana e à preservação da natureza como expressão do sagrado.

A afroteofobia, compreendida como a aversão, hostilidade ou ódio dirigido às divindades africanas, aos seus símbolos, rituais, saberes e formas de existência, constitui uma das expressões mais perversas do racismo estrutural herdado do colonialismo. Durante séculos, as celebrações aos Nkisi, Òrìṣàs e Voduns foram demonizadas, criminalizadas e perseguidas por setores da sociedade que, influenciados por concepções eurocêntricas e maniqueístas, procuraram desqualificar as tradições africanas e afro-brasileiras.

Neste contexto, o Brado de Xangô representa a recusa do silêncio diante das injustiças. Xangô, enquanto arquétipo da justiça e da verdade, inspira o Povo de Terreiro a denunciar as violências simbólicas e materiais que ainda recaem sobre as comunidades tradicionais de matriz africana. Seu brado ecoa como uma convocação para que homens e mulheres assumam o protagonismo na defesa dos seus direitos constitucionais, culturais, religiosos e civilizatórios.

Em municípios como Camaquã e praticamente todos os demais municípios brasileiros, o Povo de Terreiro participa da construção da vida comunitária, da solidariedade e da promoção da cultura afro-brasileira. Torna-se urgente fortalecer ações educativas que enfrentem o racismo religioso e promovam o respeito à diversidade de crenças. A luta contra a intolerância religiosa não é uma pauta exclusiva das comunidades de terreiro; ela constitui um compromisso de toda sociedade que se pretende democrática.

Todavia, o Brado de Xangô não se limita à dimensão dos direitos religiosos. Ele também se projeta sobre a questão climática e ambiental. Nas tradições africanas e afro-brasileiras, a natureza não é um recurso a ser explorado indiscriminadamente; ela é território do sagrado, espaço de manifestação das forças vitais e condição indispensável para a continuidade da vida.

As águas, as matas, os rios, as pedreiras, os ventos e os mares possuem significados espirituais profundos. Destruir a natureza é, portanto, destruir parte da própria memória ancestral e comprometer a relação harmoniosa entre humanidade e cosmos. Por essa razão, o Povo de Terreiro possui uma contribuição singular a oferecer ao debate contemporâneo sobre sustentabilidade e justiça ambiental.

O Brado de Xangô convoca toda a sociedade a refletir sobre os impactos das mudanças climáticas, do desmatamento, da poluição das águas, da degradação dos ecossistemas e da lógica predatória que transforma a Terra em mercadoria. A sabedoria ancestral africana ensina que não existe separação entre o bem-estar humano e o equilíbrio ambiental. Quando a natureza adoece, a comunidade também adoece.

Dessa forma, a defesa dos territórios sagrados, das áreas verdes, dos recursos hídricos e da biodiversidade deve ser compreendida como uma ação espiritual, ética e política. O cuidado com o meio ambiente torna-se, simultaneamente, um ato de respeito aos ancestrais, aos Òrìṣàs, aos Nkisi e aos Voduns, bem como um compromisso com as futuras gerações.

O Brado de Xangô ressoa, assim, como um chamado à construção de uma sociedade antirracista, ecologicamente responsável e comprometida com a justiça social. Um chamado que une a luta contra a afroteofobia, o enfrentamento ao racismo religioso e a defesa da vida planetária.

Que o trovão de Xangô desperte consciências, ilumine caminhos e fortaleça a coragem daqueles e daquelas que se recusam a aceitar a intolerância, a desigualdade e a destruição ambiental como destino inevitável.
Que a justiça de Xangô inspire o Povo de Terreiro e toda a sociedade a construir relações fundadas no respeito, na dignidade, na diversidade e na preservação da vida.

ÀṢẸ! NGUZO! MOOYO!
Afroteólogo Prof. Jayro Pereira de Jesus

Presidente da ATRAI – Associação Nacional de Teólogos e Teólogas Afrocentrados(as) da Tradição de Matriz Africana, Afro-Umbandista e Indígena.